18 fevereiro 2013

"PATRIMÓNIOS" no semanário BADALADAS


Nº 35 - Publicado em 9 de Novembro de 2012



É PRECISO DEFENDER O PATRIMÓNIO NOS CENTROS HISTÓRICOS
(I Parte)

ISABEL LUNA
(Arqueóloga)
“Há dois erros comuns no que diz respeito ao património. O primeiro é pensar que é sobre edifícios: é sobre as pessoas e o que elas investem nos tijolos. O segundo é pensar que é sobre o passado: é sobre o futuro, o que ficará depois de nós desaparecermos” (Simon Thurley).

Os conceitos de património cultural e de conservação, tal como hoje os entendemos, são construções da moderna sociedade ocidental. O processo de patrimonialização, isto é, de distinção daquilo que se considera herança colectiva e que, como tal, deve ser preservado e legado às gerações vindouras, tem por base valores sociais condensados em convenções internacionais, cuja dinâmica tem sido patente ao longo das últimas décadas.
Se, no final do século XIX, a conservação patrimonial incidia sobre o monumento, entendido como criação arquitectónica excepcional, isolada e expressão de culturas passadas, a partir dos anos 60 do século XX, o conceito de monumento amplia-se, abarcando os conjuntos edificados e os sítios, urbanos ou rurais, sejam eles formados por grandes criações artísticas ou por edificações modestas e anónimas que, enquanto conjunto, adquiriram significado cultural (Carta de Veneza, 1964). Os sítios urbanos passam então a ser considerados monumentos históricos, uma sensibilidade que está intimamente ligada à devastação de inúmeras cidades europeias, provocada pela Segunda Guerra Mundial, e ao reconhecimento do papel dos centros urbanos na construção e consolidação da identidade colectiva das sociedades.
O progresso que caracterizou o pós-guerra trouxe, porém, novas ameaças às cidades. O acelerado desenvolvimento urbano, destacando-se os grandes empreendimentos públicos e privados, associados também à especulação imobiliária, criou uma enorme pressão sobre os núcleos urbanos, de que resultaram irremediáveis destruições. Assim, a partir dos anos 80, as preocupações voltaram-se para o ordenamento territorial e para o enquadramento harmonioso das novas construções nos antigos núcleos edificados, tentando respeitar o carácter das cidades antigas e das aldeias tradicionais, os seus edifícios dominantes e a sua relação com a paisagem envolvente.
A noção de cidade congrega dois sentidos complementares: um sentido territorial – topográfico, urbanístico, arqueológico –, que engloba espaços e edifícios, e um sentido social, de comunidade politicamente organizada para a consecução de objectivos comuns. Os núcleos urbanos constituem, assim, expressões materiais da vida das sociedades que os habitaram ao longo dos tempos e, por esse facto, devem ser também entendidos como documentos históricos. São os centros históricos urbanos que preservam, primordialmente, o carácter histórico da cidade e o conjunto de elementos materiais e simbólicos que exprimem a sua imagem; ou seja, são eles que consagram a memória da cidade. O património construído constitui, neste contexto, uma parte relevante e insubstituível do tecido urbano, crucial para a identidade de uma cidade e dos seus residentes, presentes e futuros.
Locais primordiais de socialização, as cidades são entidades complexas, cuja identidade, apesar de historicamente enraizada, está em permanente mutação. O derradeiro objectivo da conservação do património urbano consiste, assim, na manutenção, potencialização e transmissão dos valores e quadros históricos de referência da cidade, em permanente equilíbrio com o moderno progresso, a bem do desenvolvimento harmonioso das sociedades. Porque “uma cidade sem passado é como uma pessoa sem memória” (Carta Urbana Europeia, 1992).


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Nº 36 - Publicado em 21 de Dezembro de 2012


A IMPORTÂNCIA DA ARQUEOLOGIA URBANA
(II Parte)

ISABEL LUNA
(Arqueóloga)


Os núcleos urbanos constituem expressões materiais da vida das comunidades que os habitaram ao longo dos tempos e, por esse facto, constituem “um dos mais poderosos arquivos da memória da sociedade contemporânea”: “na cidade, o passado está sempre presente” [1]. Mas o património histórico dos centros urbanos não se confina aos espaços e às construções que se erguem acima do solo. De facto, sob os solos das cidades acumulam-se sucessivas camadas de vestígios arqueológicos, que testemunham a vida de dezenas de gerações de antepassados que habitaram o mesmo local e que o foram transformando ao longo dos séculos.
As cidades, vilas e aldeias são estruturas complexas, pluri-estratigrafadas, que resultam de lentos processos de construção, alteração, reformulação, deterioração e renovação, devidamente sedimentados pela passagem do tempo. Estas acções acabam por ficar registadas no subsolo, numa complexa sobreposição de níveis de ocupação que, apesar de “invisíveis”, constituem verdadeiros "arquivos do solo" [2], de elevado potencial histórico-documental.
A consideração da cidade como sítio histórico-monumental (Carta de Veneza, 1964) pressupõe o seu entendimento como uma realidade única, um todo em si própria. Nesta perspectiva, o estudo da cidade deverá partir de uma abordagem integral e transdisciplinar, que tenha em conta a sua integração tanto no espaço como no tempo. A Arqueologia Urbana, através das suas metodologias específicas, é a disciplina que permite recuperar a informação contida no subsolo das cidades e proceder ao seu estudo sequencial, revelando a origem e evolução da urbe.
A Arqueologia Urbana desenvolveu-se a partir da segunda metade do século XX, quando o objecto de estudo da arqueologia se alargou para lá dos períodos clássicos da história, estabelecendo a aplicabilidade dos seus métodos a todas as épocas do passado, até à actualidade. Também a destruição urbana provocada pela Segunda Guerra Mundial permitiu uma consciencialização do volume de informação histórica irremediavelmente perdido, num processo conhecido por “erosão da história”.
Todavia, a arqueologia urbana não deve confundir-se com uma mera “arqueologia em meio urbano”, de carácter necessariamente pontual e fragmentário: mais do que uma arqueologia na cidade, ela deve constituir-se como uma arqueologia da cidade. O que, de certa forma, pressupõe que cada cidade seja “objecto de um projecto de investigação consistente, com objectivos concretos” [3]. A arqueologia urbana deve ser entendida, pois, como uma arqueologia “das cidades vivas”, enquanto prática contínua, decorrente de um projecto de investigação coordenado por uma entidade tutelar [4]. A cidade é percebida como uma entidade viva, em permanente evolução, em que a arqueologia procura não apenas o seu conhecimento, mas fazer simultaneamente com que esse conhecimento seja utilizado na gestão quotidiana e sustentável do espaço urbano, tendo em conta que os recursos arqueológicos são limitados e a sua perda irreversível e irreparável.
Em Portugal, destacam-se os casos de Braga e Mértola onde, através de projectos integrados de arqueologia, foi possível obter um conhecimento profundo sobre as cidades e, simultaneamente, fazer reverter esse mesmo conhecimento em prol do desenvolvimento das urbes.

± Texto escrito ao abrigo do antigo acordo ortográfico


[1] MARTINS, Manuela e RIBEIRO, Maria do Carmo – «A arqueologia urbana e a defesa do património das cidades», 2010, 149-177.
[2] GALINIÉ, Henri – «La gestion des archives du sol en ville», 1992, 137-162.
[3] MARTINS, Manuela e RIBEIRO, Maria do Carmo, op. cit.
[4] GASPAR, Alexandra, DELGADO, Manuela & LEMOS, Francisco Sande – «O salvamento de Bracara Augusta», 1986, 27-42.



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Nº 37 - Publicado em 11 de Janeiro de 2013



O LUGAR DA ARQUEOLOGIA NO CONTEXTO ACTUAL DA HISTÓRIA DAS CIDADES
(III Parte)

ISABEL LUNA
(Arqueóloga)

O desenvolvimento das investigações em arqueologia urbana levou a que, na década de 70 do século XX, se tenha constatado a incoerência da repartição do estudo dos centros urbanos entre uma disciplina arqueológica que investigava o património construído oculto no subsolo, e uma disciplina arquitectónica que investigava aquele que se elevava acima do solo. De facto, o património arqueológico, apesar de soterrado, aflora por vezes à superfície, a partir das fundações dos edifícios existentes. A própria genealogia histórica dos imóveis é atestada pela investigação arqueológica, pelo que a acção do arqueólogo se estende ao edificado e a do arquitecto tem de passar, invariavelmente, pela componente arqueológica dos edifícios. Nasceu assim a denominada Arqueologia da Arquitectura, uma especialização metodológica e instrumental, pluridisciplinar, que envolve urbanistas, arquitectos, engenheiros, historiadores de arte, arqueólogos e artífices, que veio renovar e alargar consideravelmente os estudos de arqueologia urbana. Basicamente, consiste na aplicação aos edifícios das metodologias arqueológicas, nomeadamente dos sistemas de análise estratigráfica e de registo. A estratigrafia horizontal, do subsolo urbano, é entendida como formando uma unidade natural com a estratigrafia vertical das paredes dos edifícios, com a qual claramente se interrelaciona.
A Arqueologia da Arquitectura beneficiou de um conjunto de desenvolvimentos teóricos e tecnológicos registados nos últimos anos, como os sistemas de datação absoluta de paramentos (dendrocronologia e termoluminescência), as técnicas de registo e representação (fotogrametria), os sistemas de análise de técnicas e materiais de construção e um novo sistema de representação estratigráfica: a matriz de Harris (1979). Estas técnicas, aplicadas aos edifícios, permitem obter informações não apenas sobre a construção, mas igualmente sobre as alterações, restauros e reconstruções efectuadas ao longo do tempo.
A arqueologia urbana, enquanto arqueologia da “cidade em devir”, procura estudar, entre outros aspectos, a origem e evolução da cidade, o seu enquadramento, planeamento, estrutura morfológica, relações e hierarquias espaciais, infra-estruturas e edificações urbanas, bem como as suas vocações, locais simbólicos, actividades económicas e movimentos populacionais. A nova abordagem dada pela arqueologia da arquitectura veio acrescentar a este volume de informação uma série de conhecimentos específicos sobre as edificações urbanas, nomeadamente o estudo dos espaços e dos usos, bem como dos processos, técnicas e fases de construção.
Não obstante todos os desenvolvimentos da arqueologia urbana, no final do século XX o crescimento demográfico das cidades e a consequente expansão da construção civil, a par dos projectos de renovação urbana, em particular dos centros históricos, acabaram por afastar a disciplina dos seus propósitos iniciais, passando esta a funcionar quase exclusivamente como uma “arqueologia de salvamento”, cuja função consiste em libertar os terrenos urbanos dos empecilhos arqueológicos, de modo a viabilizar novos empreendimentos. Se bem que a maioria dos municípios disponha já de gabinetes de arqueologia, que procedem ao acompanhamento das intervenções levadas a cabo nos centros urbanos, muitos limitam ainda a sua acção aos trabalhos arqueológicos mínimos obrigatórios, nos imóveis classificados e suas respectivas zonas de protecção, remetendo a história das cidades para um plano claramente secundário. Por isso, os centros históricos urbanos continuam a assistir, diariamente, à realização de obras em espaços públicos, edifícios e infra-estruturas, que destroem irremediavelmente volumosas e preciosas parcelas da história das cidades e dos nossos antepassados.

± Texto escrito ao abrigo do antigo acordo ortográfico


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Nº 38 - Publicado em 1 de Fevereiro de 2013


  
DESCOBERTAS REALIZADAS NO CENTRO HISTÓRICO – BREVE INTRODUÇÃO
(1ª Parte)

EMANUEL CARVALHO
(Assistente de Arqueólogo)


Desde a sua criação que os centros históricos se revelaram como elementos do espaço urbano da maior importância, pois não só representam como estão na origem das cidades, vilas ou aldeias.
E se a sua importância se revela como o espaço onde “tudo” começou, no caso de Torres Vedras, é o castelo que surge como o núcleo central que esteve na origem da actual cidade. Todavia, todo o espaço “intramuros” que delimitou a área urbana, até pelo menos ao século XIX, faz parte do centro histórico, visto que muito cedo, com a expansão da urbe, foi ocupado por populações que, à sombra do castelo, aqui se vieram instalar, e por diversos motivos consoante as necessidades: defesa, comércio, política, etc. Desse tempo ficou-nos a malha urbana, na maior parte das vezes adaptada ao relevo do terreno.
Podemos afirmar assim que o centro histórico é uma das referências identitárias das populações que aqui nasceram, cresceram e morreram.
Dos principais locais a destacar no centro histórico teremos o castelo, o bairro islâmico, a judiaria, os palácios e as construções ligadas à actividade religiosa – sendo estes os locais possíveis de identificar através dos documentos históricos.
Os centros históricos, como realidades vivas, devem merecer o maior cuidado e relevância – para além da arquitectura – de outras disciplinas, como a História, a Arqueologia, a Antropologia, a Geografia, a Sociologia, cujos contributos são indispensáveis para uma visão integrada do fenómeno urbano. Porém, é no âmbito da Arqueologia que nos iremos deter mais demoradamente.
Locais como o castelo, onde na década de 80 e 90 do século XX se realizaram diversas intervenções arqueológicas, serão objecto da nossa atenção, tal como os Paços do Concelho, pela importância dos achados ali encontrados durante as obras de recuperação no início do século XXI. Outros locais, como a área de implantação do primitivo Convento de Santo Agostinho, a Rua Cândido dos Reis (antiga Corredoura), ou as recentes intervenções na Travessa do Quebra Costas e na área envolvente do Chafariz dos Canos e da Igreja de São Pedro também serão aqui referenciadas.
No início do século XXI os centros históricos afirmam-se cada vez mais como um grande mercado urbano do lazer, visto que se vem assistindo à requalificação do espaço público e à crescente implantação de bares, restaurantes, ateliers, espaços culturais, etc.
Torna-se evidente que os centros históricos desafiam cada vez mais a nossa consciência patrimonial dado que são o reflexo do passado, mas também do nosso presente, apontando metas para o futuro.

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Nº 39 - Publicado em 22 de Fevereiro de 2013
  

 PESQUISAS NO CENTRO HISTÓRICO – ZONA DO CASTELO
 (2ª Parte)

EMANUEL CARVALHO
(Assistente de Arqueólogo)

O Castelo de Torres Vedras apresenta um conjunto de construções pertencentes a diversas épocas, cuja origem pode remontar a um período pré-histórico – entre as quais se destacam as ruínas do Palácio dos Alcaides, a Igreja de Santa Maria do Castelo, o conjunto de panos de muralhas, torreões, barbacã, contrafortes e cisternas. Indubitavelmente, este núcleo urbano assume-se como o elemento mais notável do património torriense, não só pela sua relevância geográfica, mas também como o local onde “tudo começou”.
Ciente desta importância e querendo compreender melhor a história deste complexo monumental, a Associação para a Defesa e Divulgação do Património Cultural de Torres Vedras em parceria com o Espeleo Clube de Torres Vedras e com o apoio do Museu Municipal e patrocínio da Câmara Municipal, tomaram a iniciativa de lançar na década de 80 e 90 do século passado diversas campanhas de escavações arqueológicas. Este projecto foi dirigido desde o seu início pelo Dr. Clementino Amaro, tendo contado com a participação de jovens oriundos de vários países da Europa, integrados em Campos Internacionais de Trabalho, e apoiados pelo Instituto Português da Juventude.
Nas últimas campanhas a direcção dos trabalhos de escavação arqueológica foi assegurada pela dr.ª Isabel Luna que participou nas primeiras campanhas como voluntária.
A escolha do local para início dos trabalhos, – a muralha sul do castelo, junto à barbacã (pátio de entrada) – deveu-se a uma descoberta do arqueólogo torriense Leonel Trindade, que tinha observado restos de “opus signinum” (cimento romano) em alguns blocos de pedra da muralha, virados para o exterior. Foi a partir destes dados que os investigadores da altura lançaram a hipótese de que seria possível encontrar níveis da época romana à cota onde se situavam esses vestígios.
Era já conhecida a presença romana na área do castelo, uma vez que a norte existem duas cisternas que deverão ter sido construídas nessa época, facto possivelmente relacionado com a existência de uma pequena fortificação.
Apesar das fortes expectativas em trazer à luz do dia vestígios da ocupação romana, a primeira campanha, para surpresa dos investigadores, veio a revelar uma extensa necrópole (cemitério) da época medieval/moderna. Com o avançar dos trabalhos, constataram os arqueólogos que essa necrópole se estendia por toda a área em redor da Igreja de Santa Maria do Castelo.
Nos primeiros níveis escavados foi recolhido sobretudo espólio associado às invasões francesas ou às guerras civis que se lhe seguiram, uma vez que foram encontradas diversas balas esféricas de chumbo e botões de farda. No nível estratigráfico imediatamente abaixo, surgiu então a referida necrópole, com cerca de meia centena de sepulturas, contendo ossadas pertencentes a todas as faixas etárias. Tais sepulturas apresentavam tipologias construtivas diferentes: desde simples covas no chão a caixas em pedra (algumas antropomórficas) construídas com lajes calcárias, com esteios e tampas. Algumas das quais mantinham ainda na sua cabeceira as estelas – lápides decoradas com diferentes motivos, muitas delas referentes à profissão do defunto. É importante destacar que mais de metade pertencia a crianças, na sua maioria recém-nascidos. Uma dessas sepulturas – coberta por uma laje que tinha sido utilizada como tabuleiro para o jogo do moinho – apresentava uma figura humana, empunhando um bastão decorado, rodeada de cruzes de malta, símbolo que poderá corresponder à figura de um funcionário judicial medieval, designado como Saião. No contexto deste projecto de investigação esta peça foi considerada, pelo seu carácter inédito, um dos achados de maior importância.



± Texto escrito ao abrigo do antigo acordo ortográfico

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